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Tuesday, December 12, 2006

O século de Vicente de Paulo

O SÉCULO DE VICENTE DE PAULO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O contexto histórico em que viveu Vicente de Paulo, foi chamado século de luzes. Entre os famosos personagens de então, sobrepaira a figura de Vicente de Paulo. Com Herrera e Veremundo Pardo , renomados biógrafos que, como filhos espirituais, tão bem souberam se expressar sobre o Pai, podemos afirmar: se algum dia a França houvera que sacrificar a todos os seus poetas menos um, este seria Corneille, já que sua obra é uma escola de grandeza d’alma. Se, porém, a França fora obrigada a escolher apenas um de seus grandes homens, este forçosamente seria Vicente de Paulo. Têm razão porque, varão ilustre pelo seu caráter, prestigioso pela sua intuição, resoluto pela sua vontade, ele fez ressoar os harpejos dos mais ternos sentimentos inspirados pelo estro do amor. Século de moralistas, filósofos, literatos. Todos eles inclinados sobre o ser humano para lhe diagnosticar os males e descobrir as chagas, para tentar satisfazer-lhe as mais íntimas aspirações, os mais recrescentíssimos anelos. Herrera e Veremundo Pardo destacam a fazer isto, do alto do púlpito, Bourdaloue, Bossuet, Massillon; pelos livros, La Rochefoucauld, La Fontaine e La Bruyère; através da poesia, Racine e Molière; com um pensar profundo, Descartes e Pascal. Todos, porém se movendo na região da teoria. O herói que esplende na obra corneliana é fruto da imaginação. É irreal. La Fontaine insinua a astúcia, a esperteza. Angústia metafísica é o que fica após a leitura de La Rochefoucauld. Os oradores limitam-se a instruir. Único, o médico de todas as necessidades: Vicente de Paulo. Este, sim, toma nos braços o pobre desvalido. Leva o pão a quem tem fome. Rompe os grilhões dos desditosos. Aprofunda-se no Evangelho para mais amar e ama para ajudar e servir. Apreende, então, o significado verdadeiro da dor humana e, assim, supera as idéias dos moralistas, psicólogos, romancistas, políticos, levando ao tugúrio da miséria o verdadeiro lenitivo, o bálsamo oportuno, o remédio que cura e salva. Quando a população mais abandonada morre de fome, e Luís XIV já não se atreve a repetir a idolátrica fórmula de seu absolutismo esdrúxulo “ o Estado sou eu”, surge Vicente de Paulo e realiza o que o soberano orgulhoso é incapaz de fazer e se torna, dessa forma, o Salvador e o Benfeitor comum. Passaram as glórias daqueles dias de fausto, dos quais Versalhes era o símbolo mais imponente. Engolfaram na sombra os aclamados da alta nobreza. Ruíram os palácios deslumbrantes. Caíram no olvido inúmeros da elite cultural. Perdura, porém, viva, imortal, a obra de Vicente de Paulo, que se eternizou após sua morte. Revolução sem ruínas, sem lutas de classes, sem demagogia. Obra divina porque pautada pela misericórdia. Para sempre, estaria o arauto da caridade vinculado a quase todos os feitos que cristalizariam no porvir toda a glória de seu tempo.
* Professor. no Seminário de Mariana – MG

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