O livro dos sete selos e Vicente de Paulo
O LIVRO DOS SETE SELOS E VICENTE DE PAULO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
No seu imortal Fausto, Goethe, em célebre passagem, comparou a história da humanidade ao Livro dos Sete Selos de que fala a Revelação, e que ninguém, no céu, na terra ou abaixo da terra, podia abrir e compreender. Se quebramos estes selos e abrimos este livro, nele contemplaremos ainda melhor a figura singular de Vicente de Paulo que, transfigurado pela graça, compendiou em si os primores do heroísmo, subjetivando as qualidades que mais avantajam e enaltecem. Compôs ele a mais bela obra, escritos vivos: creches, hospitais, asilos. Ensinou a mais profunda das doutrinas: a caridade. Ganhou a mais árdua das batalhas: a guerra sagrada contra a desgraça e a fome, o desalento e a pobreza e transformou os espinhos da penúria em florões de honra e as lágrimas da dor em pérolas preciosas. Realizou uma epopéia completa, pois onde está a caridade nada falta que se possa desejar – De fato, onde há amor que coisa pode fazer falta? E onde não o há que coisa pode fazer proveito? Vicente de Paulo acendeu a mística da ação operosa. Fixou imponentes quadros na História. Seus territórios não foram conquistados a fio da espada, mas seu governo se estendia da França pelo mundo através das atividades benéficas de sua gloriosa Congregação. Eram missões disseminadas por toda a parte: na França e na Itália, nas ilhas Híbricas e na Escócia, na Irlanda e na Polônia, Madagáscar e Brasil. Compreendia o Hospital Geral de Paris, os nosocômios das Províncias, as obras dos forçados, as atividades das Filhas da Caridade e a obra dos meninos expostos. Império imenso do amor e da caridade que, ainda em vida, através de suas cartas, ele, sabiamente, dirigia a distâncias que revelam a extensão de seu influxo. Doutrinas de aplaudidos pensadores empolgam uma plêiade de contemporâneos e de outros seguidores. As lições deixadas por Vicente de Paulo, no seu tempo e através dos séculos, vêm agermanando multidões que fazem de sua vida empenho único qual seja imitar santo tão admirável. A fascinação de seu exemplo, as riquezas de sua experiência, a força de seus ensinamentos exerceram e continuam a provocar atração sobre inúmeros corações. A seu redor, qual coroa viva, seus imitadores, cujos nomes glorificariam por si uma geração: Luiza de Marillac, Perboy, Ozanam e centenas de outros a retratarem um pouco do esplendor deste mentor espiritual, que conduz aos páramos da perfeição mais sublime. Onde dores exigem soluços de Jó e trenos de Jeremias, São Vicente contempla as maravilhas que o batalhão fiel de seus filhos espirituais vai espalhando mundo afora. Vê os prodígios que o exército pacífico das Damas de Caridade, das Pequenas Amigas dos Pobres, das Conferências Vicentinas e centenas de outras associações, que florescem por toda parte, sob sua inspiração, vão esmando, proporcionando o conforto contra o triste e lúgubre batalhão de toda a espécie de revés. Quando Terêncio, em pleno anfiteatro romano, pronunciou aquele dito notável: “- Sou homem e nada que interessa ao homem me é alheio” - diz Santo Agostinho, em um dos seus sermões, que reboaram universais aplausos dos circunstantes. Não houve ninguém, naquela assembléia tão numerosa, composta de embaixadores de todos os países submissos ou aliados, que não estremecesse e não se mostrasse comovido com aquele grito natural. Que aclamações provocaria então Vicente de Paulo, o gênio da caridade! O que fariam, uma idéia podemos ter ao recordar cena empolgante que presenciou Paris no dia 25 de abril de 1830 em soleníssimo cortejo. Num rico relicário, presente da grande diocese parisiense, os restos mortais do festejado herói foram transladados para a nova capela dos Padres da Missão. Mais pareceu aquilo a apoteose de um César nos tempos clássicos! Um povo não podia tributar, a um morto, culto mais solene nem mais tocantes e valentes homenagens, lavrando então a sentença que qualifica a importância e canoniza os méritos de Vicente de Paulo. O que o reino possuía de mais seleto se misturava com o que tinha de mais humilde e pobre no solene cortejo que demandava a igreja de São Lázaro. Todos reunidos para exaltar o grande personagem. Ruas apinhadas de sacerdotes, bispos, nobres da corte, religiosos e religiosas, de um povo vibrante que acudiu de toda a parte, cantando em altas vozes louvores ao benfeitor da pátria. Ante ele prostaram-se magnatas, rojaram-se os poderosos. O próprio rei Carlos X com a família real lhe rendeu o tributo da mais profunda veneração. Espetáculo deslumbrantíssimo jamais visto pela França. Mais ainda, em todos os mares já havia retroado o nome de Vicente de Paulo numa jornada triunfal pelo mundo. A ele nossos sinceros louvores! * Professor no Seminário de Mariana - MG

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