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Tuesday, December 12, 2006

Atualidade da Mensagem Vicentina

ATUALIDADE DA MENSAGEM VICENTINA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No seu ideal de perfeição, na sua mística de caridade, no seu destemor ante o erro, São Vicente de Paulo é o apóstolo de nossos tempos. Ele informou os séculos que lhe seguiram. Quem veio depois dele encontrou obra alinhavada ou feita. O que há de mais nobre no mundo moderno, de ubérrimo, de bom, de útil em nossa sociedade traz marcas dessa personalidade. Ostenta relevos de sua iniciativa. Reflete as cintilações de seu espírito reformador. Ele transfigurou a consciência de seu tempo, incentivou a esmola, idealizou as obras sociais de nossos dias, pregou a luta santa contra toda a espécie de miséria. Fez fulgir os mais lúcidos rasgos do amor e da fraternidade. É, de fato, o santo deste novo milênio.
Quando analisamos o homem e suas virtualidades, constatamos que sua magna prerrogativa é o dom da liberdade. Que tremendos desvios, porém, não lhe trouxe o liberalismo! Além disso, na ordem político-social, os desmandos dos princípios da Revolução Francesa. No plano sócio-econômico as conseqüências da Revolução Industrial transtornaram as relações entre o Capital e o Trabalho e impuseram o prestígio da máquina que passou a ser endeusada juntamente com a ciência. O homem, o pontífice do universo, o rei da criação, passou a ser escravo da tecnologia.
A obra de São Vicente de Paulo é todo um panegírico à dignidade da pessoa humana no que ela tem de mais sacrossanto. É a proclamação da necessidade imperiosa da revisão os padrões sociais hodiernos. Quando a indústria adquiriu uma posição de absoluto predomínio entre todos os interesses humanos e uma sociedade de consumo tiraniza, despersonalizando, massificando; quando poetas, dramaturgos, romancistas tomam para tema de suas obras aspectos econômicos; quando psicólogos, biólogos, químicos, engenheiros procuram mais do que nunca descobrir as relações entre suas ciências e os problemas da organização empresarial, São Vicente de Paulo deve ser a figura a ser apresentada aos homens de hoje. Ele superou o gravíssimo problema da antinomia entre a santidade e a riqueza, ordenando-a para Deus e para o serviço do próximo. Ele contesta o desejo insaciável de riquezas. Condena uma minoria que tudo quer possuir, enquanto a maior parte passa penúria. Aponta assim a fonte primária das desordens sociais atuais e a solução para um equilíbrio harmônico entre capital e trabalho e clama por uma distribuição mais equânime dos bens.
Ao fixarmos a atenção nas colunas mestras da sociedade, um espetáculo confrangedor se nos antolha. Se contemplamos a coluna da autoridade, nós a vislumbramos tragicamente minada pelas deturpações dos totalitarismo de dirigentes que estão na onda de um novo messianismo. Se vemos o argênteo plinto do trabalho nós o deparamos lugubremente abalado pelo materialismo, sob o signo funesto do neo-escravismo. Se analisamos o áureo pedestal do patriotismo, nós o percebemos tristemente ensombreado pelos nacionalismos radicais que levam a lutas fratricidas. Se pesquisamos a peanha reluzente do amor, nós a sentimos dramaticamente conspurcada pelo sexualismo. Se olhamos a coluna grandiosa da propriedade, logo se nos surgem à vista os abusos monstruosos do capitalismo liberal, inumano e cruel, a lhe abalar os fundamentos. Tudo isto outra coisa não é senão a inversão de valores supremos arrancados às suas raízes sobrenaturais, deslocados do eterno para o efêmero, do substancial para o acidental e arbitrário. A mensagem de caridade de São Vicente de Paulo, porém, será a salvação do século XXI. Ele é assim a grande esperança de nossa civilização à beira de um colapso. * Professor no Seminário de Mariana - MG

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