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Wednesday, December 13, 2006

Planejar 2007

PLANEJAR 2007
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Está na moda falar em gerenciamento do tempo. O início de um novo ano se presta a uma reflexão sobre o tema. Cumpre, de fato, uma renovada estruturação ativa da vida, uma busca por mais qualidade e alegria do viver. Devida a aceleração da História, se impõe uma nova cultura do tempo. Quem bem analisar o que se passou em 2006 verá que é preciso a adoção de outros modelos mentais para melhorar ainda mais a técnica de trabalho, a busca do triunfo num modelo de vida que se compactue com uma existência da qual esteja longe todo e qualquer stress nocivo. Este, segundo os médicos, é um conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase, ou seja, a tendência à estabilidade do meio interno do organismo. Para que se evitem expectativas impraticáveis, frustrantes, e a ansiedade deletéria é mister balizar o planejamento não em função do ter, mas do ser e do viver. É necessário que se tenha consciência de que é cada um quem faz a diferença, tornando o ambiente no qual age mais cordial e agradável. Nunca, como em nossos dias, é tão necessário mentalizar esta verdade compendiada neste ditado: “Não é o lugar que faz o homem, mas este, sim, quem faz o lugar”. Muitos pensam que é mudando de emprego ou indo para outras plagas que conseguirá evitar os problemas. Cada ser humano os leva consigo seja para onde for, uma vez que a fonte das preocupações e dos desares está lá dentro do coração que não pode naufragar em emoções doentias. O relacionamento com o próximo e com o próprio labor cotidiano depende da mundividência própria. È necessário modificar paradigmas que imobilizam rumo a um progresso contínuo. Para isto a auto-avaliação é de suma importância. Transformar-se para deparar a ventura. De plano eliminar todos os sentimentos de mágoa, ressentimento, desgosto, inveja que ocasionam os maiores transtornos. O atual contexto é caracterizado pela cultura da velocidade. Há precisão de cadenciar o pensamento, a ação e o objetivo em mira. Para isto é mister afastar tudo que se embute no cotidiano e que trava o bom resultado que se quer obter, moderando o ritmo alucinante da vida com aquela dose de equilíbrio que leva ao bem-estar. Há sempre alternativas viáveis que ficam por vezes obliteradas. Existem possibilidades novas para cada um ser mais produtivo e criativo em tudo que faz. O segredo é ser movido por impulsos que venham lá do interior e não por impulsões exteriores. Então fica mais fácil abrir as janelas do tempo e permitir lampejos inovadores que significam planos alternativos para se chegar a um determinado fim sem maior pressão exercida pelo tempo. Não se pode ser joguete das circunstâncias e ser vítima da horripila depressão, da extenuante fadiga, da amargura profunda, do molesto desânimo. Nada de sabotar a si mesmo! Nada, outrossim, de querer enquadrar os outros nos moldes mentais pessoais. O respeito ao perfil caracterológico do outro é de capital valor para o relacionamento mútuo. Entretanto, não basta protocolar compromissos e, até, priorizá-los para o Ano Novo, mas o principal será cumpri-los, pois do contrário haverá inevitável frustração. Nada de deixar as energias no porão. Acrescente-se que é preciso imitar o Papa João XXIII que sabia muito bem simplificar as tarefas complicadas e nunca complicava os afazeres simples. Um outro detalhe é se ater ao que ensinou o Dr. Lothar J. Seiwert o qual propõe a mudança do slogan “tempo é dinheiro” para “ tempo é vida” e por isto “se alguém tiver pressa, procure andar mais devagar”! Aí, sim, curtirá a vida. Mudança de uma visão quantitativa para uma mundividência qualitativa. Seja qual for a etapa da vida, cumpre sempre almejar o crescimento espiritual e sapiencial numa trajetória de sucesso em vistas à eficácia. O importante é não deixar que as coisas simplesmente aconteçam no Novo Ano, mas com automotivação viver plenamente cada um dos 365 dias. * Professor no Seminário de Mariana – MG-

Tuesday, December 12, 2006

O século de Vicente de Paulo

O SÉCULO DE VICENTE DE PAULO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O contexto histórico em que viveu Vicente de Paulo, foi chamado século de luzes. Entre os famosos personagens de então, sobrepaira a figura de Vicente de Paulo. Com Herrera e Veremundo Pardo , renomados biógrafos que, como filhos espirituais, tão bem souberam se expressar sobre o Pai, podemos afirmar: se algum dia a França houvera que sacrificar a todos os seus poetas menos um, este seria Corneille, já que sua obra é uma escola de grandeza d’alma. Se, porém, a França fora obrigada a escolher apenas um de seus grandes homens, este forçosamente seria Vicente de Paulo. Têm razão porque, varão ilustre pelo seu caráter, prestigioso pela sua intuição, resoluto pela sua vontade, ele fez ressoar os harpejos dos mais ternos sentimentos inspirados pelo estro do amor. Século de moralistas, filósofos, literatos. Todos eles inclinados sobre o ser humano para lhe diagnosticar os males e descobrir as chagas, para tentar satisfazer-lhe as mais íntimas aspirações, os mais recrescentíssimos anelos. Herrera e Veremundo Pardo destacam a fazer isto, do alto do púlpito, Bourdaloue, Bossuet, Massillon; pelos livros, La Rochefoucauld, La Fontaine e La Bruyère; através da poesia, Racine e Molière; com um pensar profundo, Descartes e Pascal. Todos, porém se movendo na região da teoria. O herói que esplende na obra corneliana é fruto da imaginação. É irreal. La Fontaine insinua a astúcia, a esperteza. Angústia metafísica é o que fica após a leitura de La Rochefoucauld. Os oradores limitam-se a instruir. Único, o médico de todas as necessidades: Vicente de Paulo. Este, sim, toma nos braços o pobre desvalido. Leva o pão a quem tem fome. Rompe os grilhões dos desditosos. Aprofunda-se no Evangelho para mais amar e ama para ajudar e servir. Apreende, então, o significado verdadeiro da dor humana e, assim, supera as idéias dos moralistas, psicólogos, romancistas, políticos, levando ao tugúrio da miséria o verdadeiro lenitivo, o bálsamo oportuno, o remédio que cura e salva. Quando a população mais abandonada morre de fome, e Luís XIV já não se atreve a repetir a idolátrica fórmula de seu absolutismo esdrúxulo “ o Estado sou eu”, surge Vicente de Paulo e realiza o que o soberano orgulhoso é incapaz de fazer e se torna, dessa forma, o Salvador e o Benfeitor comum. Passaram as glórias daqueles dias de fausto, dos quais Versalhes era o símbolo mais imponente. Engolfaram na sombra os aclamados da alta nobreza. Ruíram os palácios deslumbrantes. Caíram no olvido inúmeros da elite cultural. Perdura, porém, viva, imortal, a obra de Vicente de Paulo, que se eternizou após sua morte. Revolução sem ruínas, sem lutas de classes, sem demagogia. Obra divina porque pautada pela misericórdia. Para sempre, estaria o arauto da caridade vinculado a quase todos os feitos que cristalizariam no porvir toda a glória de seu tempo.
* Professor. no Seminário de Mariana – MG

Atualidade da Mensagem Vicentina

ATUALIDADE DA MENSAGEM VICENTINA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No seu ideal de perfeição, na sua mística de caridade, no seu destemor ante o erro, São Vicente de Paulo é o apóstolo de nossos tempos. Ele informou os séculos que lhe seguiram. Quem veio depois dele encontrou obra alinhavada ou feita. O que há de mais nobre no mundo moderno, de ubérrimo, de bom, de útil em nossa sociedade traz marcas dessa personalidade. Ostenta relevos de sua iniciativa. Reflete as cintilações de seu espírito reformador. Ele transfigurou a consciência de seu tempo, incentivou a esmola, idealizou as obras sociais de nossos dias, pregou a luta santa contra toda a espécie de miséria. Fez fulgir os mais lúcidos rasgos do amor e da fraternidade. É, de fato, o santo deste novo milênio.
Quando analisamos o homem e suas virtualidades, constatamos que sua magna prerrogativa é o dom da liberdade. Que tremendos desvios, porém, não lhe trouxe o liberalismo! Além disso, na ordem político-social, os desmandos dos princípios da Revolução Francesa. No plano sócio-econômico as conseqüências da Revolução Industrial transtornaram as relações entre o Capital e o Trabalho e impuseram o prestígio da máquina que passou a ser endeusada juntamente com a ciência. O homem, o pontífice do universo, o rei da criação, passou a ser escravo da tecnologia.
A obra de São Vicente de Paulo é todo um panegírico à dignidade da pessoa humana no que ela tem de mais sacrossanto. É a proclamação da necessidade imperiosa da revisão os padrões sociais hodiernos. Quando a indústria adquiriu uma posição de absoluto predomínio entre todos os interesses humanos e uma sociedade de consumo tiraniza, despersonalizando, massificando; quando poetas, dramaturgos, romancistas tomam para tema de suas obras aspectos econômicos; quando psicólogos, biólogos, químicos, engenheiros procuram mais do que nunca descobrir as relações entre suas ciências e os problemas da organização empresarial, São Vicente de Paulo deve ser a figura a ser apresentada aos homens de hoje. Ele superou o gravíssimo problema da antinomia entre a santidade e a riqueza, ordenando-a para Deus e para o serviço do próximo. Ele contesta o desejo insaciável de riquezas. Condena uma minoria que tudo quer possuir, enquanto a maior parte passa penúria. Aponta assim a fonte primária das desordens sociais atuais e a solução para um equilíbrio harmônico entre capital e trabalho e clama por uma distribuição mais equânime dos bens.
Ao fixarmos a atenção nas colunas mestras da sociedade, um espetáculo confrangedor se nos antolha. Se contemplamos a coluna da autoridade, nós a vislumbramos tragicamente minada pelas deturpações dos totalitarismo de dirigentes que estão na onda de um novo messianismo. Se vemos o argênteo plinto do trabalho nós o deparamos lugubremente abalado pelo materialismo, sob o signo funesto do neo-escravismo. Se analisamos o áureo pedestal do patriotismo, nós o percebemos tristemente ensombreado pelos nacionalismos radicais que levam a lutas fratricidas. Se pesquisamos a peanha reluzente do amor, nós a sentimos dramaticamente conspurcada pelo sexualismo. Se olhamos a coluna grandiosa da propriedade, logo se nos surgem à vista os abusos monstruosos do capitalismo liberal, inumano e cruel, a lhe abalar os fundamentos. Tudo isto outra coisa não é senão a inversão de valores supremos arrancados às suas raízes sobrenaturais, deslocados do eterno para o efêmero, do substancial para o acidental e arbitrário. A mensagem de caridade de São Vicente de Paulo, porém, será a salvação do século XXI. Ele é assim a grande esperança de nossa civilização à beira de um colapso. * Professor no Seminário de Mariana - MG

Advento: sombras e alegrias

ADVENTO; SOMBRAS E ALEGRIAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Com o Advento se inicia a caminhada rumo ao Presépio, para a magna comemoração do nascimento do Redentor da humanidade. Peregrinação sagrada em busca de renovadas graças da vinda do Filho de Deus a este mundo. De plano, cada batizado percebe as sombras de suas imperfeições a serem corrigidas para se aproximar da “Luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo” (Jo 1,9). Além disto, em Belém, se deu a primeira vinda de Cristo, mas ele voltará no fim dos tempos, após os sinais conturbadores na natureza. Ele alertou: “Os homens vão desmaiar de medo só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas” (Lc 21,26). Cada preparação para o Natal é um apronto para o retorno glorioso do Rei imortal dos séculos, o qual aconselhou: “Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do homem”. Tal diretriz lança, deste modo, raios de júbilo, apesar da fragilidade do ser racional. Homero, o notável poeta grego, afirmou que “a geração dos homens é como a das folhas que rodam arrojadas em terra pelo vento”. É o aspecto sombrio, mas, um dia, porque nos nasceu o Salvador, virá a face gloriosa da História e tudo será restaurado nele para o reino eterno de alegrias sem fim. O nascimento de Jesus é o grande consolo para todos os males, uma esperança ansiosa, amorosa e ardente. Os gemidos com que os santos do Antigo Testamento suspiravam pela vinda do Messias vêm inflamar o sentimento desta expectativa. O cristianismo não é pessimista, mas realista. Seu Fundador doutrinou, chamando à realidade da precariedade humana, porém, oferecendo todos os elementos para uma vitória altissonante. Os efeitos do pecado original são inegáveis, entretanto nasceu o Médico divino que cura todas as feridas. Deste modo, um júbilo profundo penetra até o mais íntimo das almas. A Igreja orante, a sociedade dos que crêem nas promessas divinas, está à espera de seu bem-amado Senhor. Daí, paradoxalmente, um santo alvoroço. No advento se passa então da dúvida ao entusiasmo, do desalento à exultação. Os corações se erguem jubilosos num clamor de adoração e vassalagem: “Vinde e adoremos o Rei que vai chegar!” É um soberano que como disse o Anjo a Maria se sentará sobre o trono de Davi, seu pai. Os reis depositarão suas coroas diante dele e, tão só reconhecendo praticamente em palavras obras sua realeza, poderemos ser salvos. Ele é a beleza sem sombras, a perfeição infinita. A comunidade dos fiéis afasta então seus temores, suas inquietações e se imerge em gozos comovedores, por entre preces, atos de contrição e adoração, numa preparação admirável, cujos acentos rompem as fibras da alma exultante. Os brados da terra sobem, deste modo, até os céus e, de lá, descem iluminações, vozes de consolo, mensagens venturosas de anjos e profetas numa antevisão de paz, serenidade, imperturbabilidade. Todos os textos litúrgicos das quatro semanas do Advento suscitam tais consoladores sentimentos. Desaparecem as turbulências interiores, a pusilanimidade, as lamentações infantis, as aflições pueris. A dita de poder reviver, através da Liturgia, a cena presenciada por Maria, José, coros celestes, pastores e Reis Magos submerge o cristão num oceano de felicidade! É o convite bíblico que se renova: “Alegrai-vos, sempre no Senhor. Rejubilai-vos e saltai de gozo, pois Jesus nasceu para a todos resgatar para seu reino de venturas sem par”. Cumpre, desta maneira, viver intensamente todo o Advento, purificando os corações através do Sacramento da Penitência, corrigindo os erros, colocando os passos nos passos de Jesus. Este baterá, ainda uma vez, na porta de cada coração e ditoso aquele que O receber. Vale, ainda uma vez, o lembrete de um grande santo: “Temo a Jesus que passa e que pode não voltar”. É preciso corresponder às inspirações deste primeiro período do Ano Litúrgico para que se recebam todas as benesses celestiais. * Professor no Seminário de Mariana - MG

O livro dos sete selos e Vicente de Paulo

O LIVRO DOS SETE SELOS E VICENTE DE PAULO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
No seu imortal Fausto, Goethe, em célebre passagem, comparou a história da humanidade ao Livro dos Sete Selos de que fala a Revelação, e que ninguém, no céu, na terra ou abaixo da terra, podia abrir e compreender. Se quebramos estes selos e abrimos este livro, nele contemplaremos ainda melhor a figura singular de Vicente de Paulo que, transfigurado pela graça, compendiou em si os primores do heroísmo, subjetivando as qualidades que mais avantajam e enaltecem. Compôs ele a mais bela obra, escritos vivos: creches, hospitais, asilos. Ensinou a mais profunda das doutrinas: a caridade. Ganhou a mais árdua das batalhas: a guerra sagrada contra a desgraça e a fome, o desalento e a pobreza e transformou os espinhos da penúria em florões de honra e as lágrimas da dor em pérolas preciosas. Realizou uma epopéia completa, pois onde está a caridade nada falta que se possa desejar – De fato, onde há amor que coisa pode fazer falta? E onde não o há que coisa pode fazer proveito? Vicente de Paulo acendeu a mística da ação operosa. Fixou imponentes quadros na História. Seus territórios não foram conquistados a fio da espada, mas seu governo se estendia da França pelo mundo através das atividades benéficas de sua gloriosa Congregação. Eram missões disseminadas por toda a parte: na França e na Itália, nas ilhas Híbricas e na Escócia, na Irlanda e na Polônia, Madagáscar e Brasil. Compreendia o Hospital Geral de Paris, os nosocômios das Províncias, as obras dos forçados, as atividades das Filhas da Caridade e a obra dos meninos expostos. Império imenso do amor e da caridade que, ainda em vida, através de suas cartas, ele, sabiamente, dirigia a distâncias que revelam a extensão de seu influxo. Doutrinas de aplaudidos pensadores empolgam uma plêiade de contemporâneos e de outros seguidores. As lições deixadas por Vicente de Paulo, no seu tempo e através dos séculos, vêm agermanando multidões que fazem de sua vida empenho único qual seja imitar santo tão admirável. A fascinação de seu exemplo, as riquezas de sua experiência, a força de seus ensinamentos exerceram e continuam a provocar atração sobre inúmeros corações. A seu redor, qual coroa viva, seus imitadores, cujos nomes glorificariam por si uma geração: Luiza de Marillac, Perboy, Ozanam e centenas de outros a retratarem um pouco do esplendor deste mentor espiritual, que conduz aos páramos da perfeição mais sublime. Onde dores exigem soluços de Jó e trenos de Jeremias, São Vicente contempla as maravilhas que o batalhão fiel de seus filhos espirituais vai espalhando mundo afora. Vê os prodígios que o exército pacífico das Damas de Caridade, das Pequenas Amigas dos Pobres, das Conferências Vicentinas e centenas de outras associações, que florescem por toda parte, sob sua inspiração, vão esmando, proporcionando o conforto contra o triste e lúgubre batalhão de toda a espécie de revés. Quando Terêncio, em pleno anfiteatro romano, pronunciou aquele dito notável: “- Sou homem e nada que interessa ao homem me é alheio” - diz Santo Agostinho, em um dos seus sermões, que reboaram universais aplausos dos circunstantes. Não houve ninguém, naquela assembléia tão numerosa, composta de embaixadores de todos os países submissos ou aliados, que não estremecesse e não se mostrasse comovido com aquele grito natural. Que aclamações provocaria então Vicente de Paulo, o gênio da caridade! O que fariam, uma idéia podemos ter ao recordar cena empolgante que presenciou Paris no dia 25 de abril de 1830 em soleníssimo cortejo. Num rico relicário, presente da grande diocese parisiense, os restos mortais do festejado herói foram transladados para a nova capela dos Padres da Missão. Mais pareceu aquilo a apoteose de um César nos tempos clássicos! Um povo não podia tributar, a um morto, culto mais solene nem mais tocantes e valentes homenagens, lavrando então a sentença que qualifica a importância e canoniza os méritos de Vicente de Paulo. O que o reino possuía de mais seleto se misturava com o que tinha de mais humilde e pobre no solene cortejo que demandava a igreja de São Lázaro. Todos reunidos para exaltar o grande personagem. Ruas apinhadas de sacerdotes, bispos, nobres da corte, religiosos e religiosas, de um povo vibrante que acudiu de toda a parte, cantando em altas vozes louvores ao benfeitor da pátria. Ante ele prostaram-se magnatas, rojaram-se os poderosos. O próprio rei Carlos X com a família real lhe rendeu o tributo da mais profunda veneração. Espetáculo deslumbrantíssimo jamais visto pela França. Mais ainda, em todos os mares já havia retroado o nome de Vicente de Paulo numa jornada triunfal pelo mundo. A ele nossos sinceros louvores! * Professor no Seminário de Mariana - MG

As glórias de Vicente de Paulo

AS GLÓRIAS DE VICENTE DE PAULO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Há um preceito bíblico acerca dos grandes personagens da História:“Celebrem os povos a sua sabedoria e publiquem os seus louvores nas assembléias”. (Ecl 40, 15). É por isto que onde pulsa um coração católico recebe Vicente de Paulo o hino do louvor mais intenso, o perfumado incenso da gratidão mais sincera, as fervorosas manifestações das honrarias mais entusiásticas. Festejado jubilosamente é sempre oportuno proclamar as maravilhas da graça divina na existência daquele sob cujo mármore sepulcral flamejam séculos de exaltação e honras. A glória refulgentíssima que foi sua venturosa partilha, seu ditoso quinhão, sua luminosíssima recompensa na Pátria celeste lhe resultou da graça santificante a lhe divinizar a vida. Ele soube viver este tesouro sublime. Daí, espetáculo palpitante, prova concreta da transfiguração do homem por Deus e atestado incontestável de que o segredo inefável da plenificação natural do ser humano se encontra, essencial e radicalmente, na adesão a esta realidade espiritual. Vínculo unificador a Cristo, a graça, comunicando à alma uma nova natureza, tornando-a deiforme, fatalmente, na participação real da vida divina (2 Pd, 1, 4). com seu fúlgido cortejo de dons e virtudes infusas, deve, na grandiosidade de suas infinitas possibilidades, projetar o homem às conquistas imortalizadoras nas veredas de toda perfeição moral, nas sendas de todas as virtudes e hábitos dignificantes. Ascensão de cada dia, sempre mais fácil e rápida, até à consumação na posse inamissível e perene da divindade isto é, até à glória. Tal o influxo esplendoroso da graça correspondida que vislumbramos naquele que se fascinou pela vida divina, pois, quando, aos trinta e cinco anos de idade, toma contato com esta riqueza interior e espiritual, nela mergulhou seus inigualáveis dotes humanos. Soube demonstrar, admiravelmente, que a renúncia do homem a si mesmo no tempo é a condição para melhor ele se encontrar no dia em que as colinas eternas se descortinarem nos horizontes de seu destino pessoal. Pôde confirmar, peremptoriamente, que só na simbiose perfeita da vida sobrenatural e natural pode o ser racional adejar às eminências culminantíssimas da plena satisfação de suas aspirações, do desabrochar magnífico das finalidades, das forças, da vitalidade humana. Demonstrou assim que, quando matéria e espírito giram na órbita desta realidade divina, quando a vemos brotar intensa, tenacíssima do imo do ser, distendendo, bracejando, qual árvore da vida, os impulsos ao infinito, o homem atinge inefáveis grandezas. Sublimado pela graça, fulgiu em Vicente de Paulo aquela encantadora perfeição exigida por Cristo: “sede perfeitos como vosso Pai celestial o é” (Mt 5, 48).. Trajetória emocionante, lançando as fulgurações características do verdadeiro valor. Aventura gloriosa, flamejando raios da genuína grandeza. Foi o varão sábio que fez de sua vida sua vinha. Ostentou a verdadeira nobreza, chancelada não em heráldicos pergaminhos ou advinda de natural ou eventual posição social, mas timbrada nos penetrais da participação da vida do próprio Deus. O luxo não exornou o seu berço, nem se viram em torno dele brasões de ilustres antepassados ou os requintes da fortuna. No entanto, por entre os mais fulvos lampejos da admiração mais acendrada, o mundo todo o exalta. Ele se mostra no pedestal de preexcelsas conquistas próprias dos geniais da história. É que o triunfo se torna a partilha dos grandes homens Embora Vicente de Paulo aborrecesse os louvores humanos, suas ações o guindaram ao plinto da honra. * Professor no Seminário de Mariana – MG

São Vicente de Paulo

OS EPÍGONOS DE VICENTE DE PAULO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Nunca os epígonos de São Vicente de Paulo exaltam por demais sua grandeza.
Diante da sua santidade e dos seus notáveis feitos, transfigurado que ele foi pela graça divina, ante personagem tão providencialmente surgido na História, perante santo tão extraordinário que, de sua urna de prata, continua a pregar ao mundo verdades fundamentais que devem ornar a vida de um cristão, seus devotos e seguidores devem elevar aos céus um contínuo hino gratulatório.
Nele o Senhor fez grandes coisas para a melhoria do mundo.
Cantos ininterruptos da gratidão mais profunda ao Ser Supremo, pelas maravilhas que operou o Onipotente em Vicente de Paulo.
Agradecer ao Todo-Poderoso pelas benemerências deste arauto do amor ao próximo.
Louvores agradecidos, outrossim, a este santo extraordinário que penhorou para sempre a Igreja e todos os homens de boa vontade.
Gratidão ao senhores Padres Lazaristas e às Reverendas Irmãs de Caridade. que prosseguem, no Brasil e no mundo, a missão do Fundador de suas Congregações.
Ao glorioso Ozanam, fundador das Conferências Vicentinas, também, as loas sinceras, bem como a todos os membros destas Conferências, cujas benemerências se espalham por toda parte na trilha de Vicente de Paulo.
O Papa João Paulo II mostrou que Frederico Ozanam “é o modelo de apóstolo leigo, erudito, empenhado e dedicado ao serviço dos mais pobres” e que, portanto dever ser exaltado e imitado.
São Gregório Magno imaginou como será a glória dos heróis no fim dos tempos. Eles aparecerão radiantes naquela assembléia geral em que Deus virá premiar seus eleitos e lhes dar recompensa, segundo o grau de graça de cada um.
É ali que os Apóstolos arrastarão após si, como em triunfo, todas as nações que ganharam para o Evangelho. Pedro se mostrará à testa da Judéia que ele converteu; André conduzirá a Acaia; João, a Ásia; Tomé a Índia. –
É então, que Vicente de Paulo oferecerá em abono numerosas almas que ele conduziu para junto de Jesus Cristo, por si e por meio de seus epígonos.
Não esta ou aquela nação, mas todo o mundo, e nele o Brasil , de quem ele tem sido, através de seus seguidores, o farol, a luz, o caminho, o norte, o guia, o mestre, o exemplo.
É ali, neste retorno glorioso de Cristo, que com Vicente de Paulo surgirão todos que marcharam após suas pegadas, heróis formidáveis talhados por seus exemplos.
Naquele instante os próprios Apóstolos se tomarão de espanto e indagarão: “Quem é este que possui tantos e tão preclaros discípulos?”.
Será, portanto, o instante de suprema glória para a família vicentina, pois realmente o Senhor escolheu Vicente de Paulo e o engrandeceu perante todo o seu povo, o qual, através dos tempos, tem celebrado sua sabedoria e nas suas assembléias tem publicado com ardor e piedade os seus louvores, praticando as obras de misericórdia para com os mais necessitados.
Tudo isto porque, como muito bem se expressou Alves Mendes, a caridade é o acume da perfeição evangélica e o esmalte da grandeza humana, a realeza mais adorável da terra e a jóia mais benquista de DEUS”..
* Professor no Seminário de Mariana -MG

Teologia das bem-aventuranças

TEOLOGIA DAS BEM-AVENTURANÇAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Tudo é significativo na vida de Jesus. Ele sobe uma colina que os evangelistas chamam de montanha (Mt 5,1-12). Ele o novo Moisés, aquele legislador famoso de Israel, que recebeu de Javé a Lei no monte Sinai, vai proferir o mais famoso sermão da História, detalhando como deve ser a conduta dos que observam integralmente o Decálogo. Cristo então se assenta numa atitude magisterial e passa a doutrinar a multidão que o seguia. Proclama a carta magna de seu Reino. O exórdio é conhecido como as bem-aventuranças. A Boa Nova que trouxera do céu à terra é uma vereda de felicidade. Há no mais profundo do ser humano o anseio recrescente da mais completa ventura, que é uma palavra que faz palpitar o coração de todos os homens. O Filho de Deus podia falar da beatitude como ninguém, dada sua comunhão estreita com o Pai, fonte de todo júbilo. Este gáudio ele queria partilhar com seus discípulos: “Que minha alegria esteja em vós e que vós sejais repletos de alegria” (Jo 15,11). Ao proclamar as bem-aventuranças o Redentor faria, além disto, o retrato falado de seus epígonos. O sábio Rabi da Galiléia podia discorrer ex cathedra sobre o tema, uma vez que se manifestaria sempre na pobreza do coração; era manso e humilde; viria ininterruptamente ao encontro dos que têm fome e sede de justiça; mostrar-se-ia continuamente misericordioso com os pecadores; ostentaria por toda parte a santidade mais eminente; irradiaria a paz e testemunharia, corajosamente, a verdade, sofrendo perseguição pela justiça do Reino até o dom total de sua vida. Convida então a seus seguidores a partilharem as Bem-aventuranças com Ele, companheiro de cada um no caminho de uma felicidade difícil de ser alcançada, mas ilimitada. É de se notar que a primeira das oito bem-aventuranças é o despojamento do coração, marca fundamental das primeiras comunidades cristãs que compreenderam fundamente a mensagem do Mestre. Ele não pregava uma resignação patológica, mas uma visão clara da precariedade dos bens terrenos que devem ser um meio e não um fim em si mesmos. Os demais valores evangélicos, que enumera em seguida, são exatamente uma abertura para um mundo diferente, ou seja, a Jerusalém do alto, onde Deus mesmo será aquele que é a eterna beatitude dos que Lhe foram fiéis na peregrinação terrestre, aqueles que tomaram inteiramente o Evangelho como regra de vida, todos os santos. Não se trata de um futuro incerto, nem de uma alienação nesta terra, uma vez que o reino de Deus já está entre os seus discípulos (Lc 17,21). Pode-se ser feliz aqui e agora, desde que se viva a óctupla via por Ele proposta. Não se trata da apologia de uma tranqüilidade passiva e ingênua. Só será feliz quem se engaja concretamente no sentido mais profundo destas bem-aventuranças, cuja vivência exigem, de fato, muita coragem, determinação, pugna constante contra a ambição, o descorajamento, contra a fobia das desgraças da fome e da sede, contra a covardia em não ser misericordioso, contra a poluição das impurezas interiores e exteriores, contra a falta de alento para ser agente da paz, contra o temor da perseguição por causa da justiça, contra a insinceridade no testemunho batismal. A pobreza anunciada por Jesus é a recusa ao poder pelo poder, ao orgulho, à vaidade, ao apego à riqueza pela riqueza. As lágrimas manifestam uma compaixão cordial que leva cada um a entrar em comunhão com os que sofrem, como aconselhava São Paulo: “Chorar com os que choram” (Rm 12,15). A mansidão é a acolhida do outro sem preconceito, nem inveja. Fome e sede de justiça significam não se compactuar com as discriminações, as estruturas sociais injustas. Ser misericordioso é não voltar as costas aos necessitados e marginalizados da sociedade. A pureza de coração é sinônimo de transparência, excluindo-se, sem tergiversação, tudo que polui a mente e a consciência num mundo hedonista, materialista, imoral. Irradiar a paz supõe uma vontade firme de realizar a reconciliação à imagem de Cristo que afirmou: “É a paz que eu vos dou” (Jo 14,27). Quem procura a justiça do Reino será sempre perseguido, mas não se dobra diante da malvadez humana, as incompreensões e zombarias. Trata-se de remar contra a corrente do mal, tendo como referência a eterna felicidade junto do Ser Supremo, segundo o anúncio feito por Cristo: “Alegrai-vos e exultai, porque será grande nos céus a vossa recompensa”. Lembremo-nos, porém, sempre, que as bem-aventuranças são proporcionais à largura e à profundeza da fé, da esperança e do amor que o cristão possua.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

Reflexão natalina

JESUS, CAMINHO SEGURO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Natal deve recordar aos cristãos aspectos fundamentais da missão de Jesus. Ele é a via segura para se chegar à salvação eterna. Uma das expressões basilares proferidas pelo Redentor foi esta: “Eu sou o caminho! (Jo 14,6) A única vereda que conduz ao Criador à espera de cada ser racional no reino eterno. Ele é o liame vivo que une, uma às outras, as ovelhas de um rebanho do qual é o pastor supremo. Aliás, Ele foi claro: “Ninguém vai ao Pai senão por mim... Se vós me conhecêsseis, conheceríeis o Pai. Eis Porque ele legou exemplos e compendiou uma doutrina com referenciais seguros na trajetória que tem seu momento decisivo na passagem do tempo à eternidade. O viandante corre, diuturnamente, riscos: pode extraviar-se e até precipitar-se em abismos. Assim, Ele quis dar segurança aos que almejam chegar à meta gloriosa de uma ventura perene. Entretanto, para se percorrer esta estrada real, há condições preliminares indispensáveis. Uma delas é o renunciamento ao amor próprio, ao egoísmo, raiz de tantos distúrbios íntimos e causa de todo tipo de litígios e agressões. Ele foi taxativo: “Quem não renuncia a tudo que possui, não pode ser meu discípulo...” (Lc 14,33),.Trata-se de uma opção consciente entre o secundário e o passageiro, exigidos equivocadamente pelos interesses pessoais, e o essencial, o durável, que transcendem o que é material. Não se requer o abandono das tarefas terrenas o das alegrias lícitas propiciadas pela vida. Isto seria alienação. É necessário, ao contrário, degustar a existência, as belezas criadas, e assumir o dever de cada dia, monótono ou martirizante. Este é o cadinho no qual se apuram as energias interiores para que a jornada não seja interrompida. É o crisol que leva à identificação com o Modelo divino. Paul Coulet falou no “trágico sério da vida cristã”4 e foi feliz nesta condensação de idéias. É mister “tomar a fé que se professa e estar atento ao modo de agir em todos os seus detalhes”,5 como diria Romano Guardini. Não é fácil ser um seguidor autêntico de Jesus de Nazaré. A coerência exige seriedade e esta supõe a disposição hercúlea de se enfrentar a tragicidade de situações nas quais é preciso vencer o comodismo, custe o que custar, e não se apegar aos prazeres ilusórios. É certo que Ele está junto. É a fortaleza. A questão é a adesão, a sinceridade, a coragem. Capitular é menos custoso. Tergiversar é quase sempre a postura que pode conduzir ao fracasso. Este não é obstáculo decisivo. O problema seria não se levantar e retomar a caminhada. O perigo constituir-se-ia no desânimo ou na covardia crônica. Contudo, não se marcha só. No programa cristológico o rebanho deve seguir unido. Ele está atento e ama cada uma de suas ovelhas. Estas, por outra, se incorporam ao sábio condutor, que é coincidentemente, a própria rota a ser trilhada. Por estarem todos ligados a Ele, a nacionalidade não conta, a categoria social desaparece. O fim é comum, a travessia idêntica, o mestre o mesmo. Uns ajudam os outros, vivendo o mistério do Corpo místico do Redentor. O desvio, seja de quem for, afeta os demais. Não há prescindíveis. Todos são importantes na obra coletiva. Aí o drama da história humana. Os complicadores que fluem da má conduta afetam e prejudicam o grande grupo. O não, dito a Cristo, coincide, na vida do cristão com desordens que destroem o equilíbrio e fazem o meio ambiente tenso e moralmente asfixiante. Donde ser fatal a ausência do amor, única força que promove o sacrifício pelos outros e faz alguém ser bom, por causa dos companheiros de viagem. Não menos grave a desconfiança n’Aquele que é o chefe e que se interessa pessoalmente pelo sucesso dos que lhe pertencem pelo batismo. Adite-se o individualismo esterilizador que é empecilho num caminhar que supõe a dileção mútua como suporte ao irmão carente do apoio nos lances mais críticos. Feliz, porém, quem aceita o Enviado de Javé e anda por esta senda, colocando os seus passos nas marcas deixadas pelos pés do Salvador!. * Professor no Seminário de Mariana - MG

A Igreja e os dinossauros

A IGREJA E OS DINOSSAUROS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Em primeiro lugar cumpre se diga que a Igreja nunca se posicionou contra a existência dos dinossauros. Lemos no Gênesis que Deus “criou os grandes cetáceos e todos os animais vivos rastejantes, dos quais fervilharam as águas, segundo a sua espécie, e todas as aves aladas, segundo a sua espécie” (Gên 1,21). O Ser Supremo também determinou: “Produza a terra animais vivos segundo a sua espécie, animais e répteis e feras terrestres, segundo a sua espécie”(Gên 1, 24). O Livro Sagrado não desce a detalhes, pois a Bíblia não é um tratado de paleontologia. Os dinossauros, de acordo com os cientistas, pertencem a um grupo de reptis arcossauros, diápsidos, próximos dos crocodilos atuais. Apareceram inicialmente no período triássico, foram os animais predominantes no tempo jurássico e deixaram de existir no final do período cretáceo. Dominaram terras, águas e mesmo os ares, como os pterossauros, e dividiam-se, fundamentalmente, em dois grandes grupos: saurísquios, com quadril de lagarto, e ornitísquios, com quadril de ave. O que pode estar embutido na questão em tela é o problema dos que defendem a tese dita do criacionismo, contrária ao posicionamento que admite a evolução. Para muitos criacionistas radicais todos os animais criados por Deus estariam vivos ou nunca existiram e, assim sendo, não houve dinossauros para eles. Quanto ao evolucionismo há que se ter em conta o que é afirmado pelo douto Santo Agostinho que fala nas Rationes seminales, ou seja, nas forças germinativas no seio da matéria. Não se trata de um evolucionismo que faz nascer as espécies do acaso evolutivo com alteração ou transformação das espécies, mas sim força evolutiva na natureza mesma, essencial, das espécies, conforme estabelecido por Deus, o Criador de tudo.. A doutrina das RATIONES SEMINALES nada têm a ver com o evolucionismo moderno, dado que Agostinho admitia a imutabilidade das espécies. Além disto, seria um absurdo filosófico e uma heresia admitir-se que a vida brota por geração espontânea do seio da matéria mineral. Os fenômenos vitais, além das energias físico-químicas da matéria bruta, exigem um princípio mais elevado que as coordene na sua atividade e preserve a unidade específica do organismo. Erro mais grave ainda seria derivar as formas superiores da vida consciente do ser racional das energias vitais inferiores. A vida intelectual e moral não podem jamais ser a derradeira fase de um processo evolutivo de seres corpóreos. Portanto, cumpre sempre se admitir que a evolução foi conduzida por Deus, que a vida não vem por evolução da matéria e que o homem é essencialmente diferente dos outros animais. Nunca se recorda demais a sábia doutrina do papa Pio XII na encíclica Humani generis, na qual mostra que o magistério da Igreja não tem nada em contrário à doutrina do evolucionismo, enquanto ele indaga acerca da origem do corpo humano derivante de uma matéria preexistente e viva e não obsta que isto seja objeto de investigação e discussão da parte dos peritos. É de se notar, porém, que o evolucionismo é apenas uma hipótese, uma probabilidade, não uma certeza científica. É possível que o corpo humano, de acordo com uma ordem estabelecida por Deus nas energias da vida, tenha sido gradualmente preparado nas formas de seres vivos que o precederam. A alma humana, entretanto, sendo espiritual, não pode derivar da matéria. Observe-se que a teoria geral da evolução adotou as formas denominadas darwinismo e lamarckismo. É inegável o influxo da seleção na formação das espécies hoje existentes, mas ela não explica as profundas diferenças entre as diversas ordens de seres vivos, bem como a evolução específica superior. Os organismos primitivos não são mais incapazes de viver que os superiores. Segundo Lamarck, as formas estruturais e funcionais do ser vivo originaram-se pela adaptação ativa às diversas condições de vida. Estes caracteres pouco a pouco adquiridos ter-se-iam fixado definitivamente por hereditariedade. Entretanto a paleontologia nos descobre só tipos já determinadamente constituídos sem as inumeráveis formas intermediárias teoricamente necessárias (o que vale também contra o darwinismo) e de que até hoje a transmissão hereditária de caracteres adquiridos, positivos, não foi ainda demonstrada. * Professor no Seminário de Mariana - MG

Ortotanásia

A POLÊMICA DA ORTOTANÁSIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Continuam as indagações sobre a chamada ortotanásia, termo que os médicos costumam não empregar para que se evite confusão com a eutanásia. Trata-se, porém, de ações diferentes. A eutanásia é o procedimento que antecipa uma morte inevitável e á um assassinato, a ortotanásia significa que o médico desliga os aparelhos, e a morte ocorre naturalmente, sem indução. Dom Odilo P. Sherer expressou a posição da CNBB, remetendo ao pronunciamento de João Paulo II na encíclica “O Evangelho da Vida”.. Ensinou o Papa: “Distinta da eutanásia é a decisão de renunciar ao chamado ‘excesso terapêutico’, ou seja, a certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar, ou ainda porque demasiado pesadas para ele e para sua família. Nessas situações, quando a morte se anuncia iminente e inevitável, pode-se em consciência renunciar a tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem contudo interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes”. Mais adiante, no mesmo documento, depois de recomendar que seja feito um sério discernimento, por parte dos médicos, sobre as condições do paciente e dos meios terapêuticos à disposição, o Papa afirma:“A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação da condição humana diante da morte”. Qualquer procedimento que leve diretamente a matar um paciente é condenável. É um ato imoral contra o quinto mandamento: “Não matarás”. Pode ocorrer, além disto, o fato de se subtrair de um doente os recursos sem os quais ele vem a falecer. Tais expedientes podem ser adequados a uma melhoria do doente ou não. É inadequado quando é de tal modo sofisticado que dele pouco ou nada espera a ação médica na conservação e recuperação da saúde do enfermo. Não há obrigação moral de se empregar tais meios extraordinários, embora não se possa deixar de alimentar o paciente, aplicar-lhe os remédios que se acham normalmente à disposição do galeno, sempre que necessária propiciar a transfusão de sangue, ministrar soro e adotar outros procedimentos deste tipo. Todos os recursos possíveis e dos quais se esperam a reabilitação do enfermo precisam, portanto, ser obrigatoriamente empregados dentro das possibilidades financeiras próprias e dos familiares. Em conseqüência, simplesmente antecipar a morte é um pecado gravíssimo diante de Deus e, se isto ocorre por interesses escusos, a falta é, evidentemente, ainda mais grave. Portanto, a ortotanásia é uma ação completamente diferente da eutanásia.* Professor no Seminário de Mariana - MG

Relexões para o fim do Ano

REPARAR AS FALTAS DO ANO QUE FINDA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
10 Há um episódio na Bíblia sumamente ilustrativo sobre a importância do justo, que é catalizador da misericórdia divina. Relata a Escritura que, quando Deus anunciou a Abraão a destruição de Sodoma este argumentou dizendo a Javé que não convinha punir os bons juntamente com os maus. O Onipotente, generosamente, afirmou a Abraão: “Se eu achar no meio da cidade de Sodoma cinqüenta justos, perdoarei por amor deles a cidade”(Gên 18, 26.) Temeroso o Patriarca, respeitosamente, foi perguntando a Deus que aconteceria se houvesse apenas quarenta e cinco, e depois foi abaixando este número, passando para quarenta, trinta, vinte pessoas dignas, que habitassem a cidade. Deus foi, pacientemente, respondendo a Abraão, afirmando que, em atenção a eles, seria preservada a urbe pecadora. Finalmente o Patriarca levantou a derradeira questão assim registrada no Gênesis: “Eu te conjuro Senhor, continuou Abraão, não te enfades, se eu te falar ainda uma vez: Que será se lá forem achados dez justos? E disse Deus: “Não destruirei por amor dos dez”. Diz o Livro Santo que Deus em seguida se retirou. Não havia nem uma dezena de indivíduos sensatos que pudessem contrabalançar as desordens daquela cidade, que foi inteiramente destruída. Cristãos que reparam junto do Coração de Jesus as prevaricações humanas são pára-raios desta terra. Esta necessita de quem reze, se sacrifique e se espiritualize, irradiando o bem na sociedade e dando à justiça divina ocasião para agir benevolamente. Somos todos responsáveis. A pergunta de Deus a Caim continua ressoando nas quebradas da História: “Onde está o teu irmão Abel”? (Gên 4, 9).O Coração de Jesus não quer necessariamente nada de extraordinário. Deseja, isto sim, a aplicação amorosa dos naturais sofrimentos do peregrinar terrestre nestas intenções propiciatórias. Valor imenso possuem os trabalhos cotidianos realizados então com maior eficiência para cooperar com o Redentor. Esta doação é de sumo agrado de Cristo. Torna-se a reparação um estado de espírito que envolve o mundo numa aura sobrenatural. Então, quando alguém contempla os erros, ao invés de lamentar a escuridão reinante, ou recriminar a ignávia covarde dos que cedem ao pecado, acende a lâmpada de uma propiciação beatificante e inicia o processo de conversão do próximo, por ele oferecendo sacrifícios e preces. É preciso rezar pelos que não oram, reparar pelos que afrontam a Deus. Assim se expressou o papa Pio XI após referir-se aos males morais da humanidade: “Quantos, acesos em amor a Jesus padecente, aplicarem o ânimo a estas considerações, não poderão deixar de ressarcir com maior empenho a honra de Cristo, expiar as culpas próprias e alheias e procurar a eterna salvação das almas”. O mundo estará salvo, enquanto houver quem compreenda e pratique tal ensinamento. No término de mais um ano, nada melhor do que atos de reparação por todos os crimes cometidos mundo todo neste ano. Barbaridades das guerras, dos assassinatos horrípilos, dos assaltos, abortos, enfim, tudo que significou o desprezo do Decálogo numa afronta acintosa ao Ser Supremo. Solicitação de perdão também pelas próprias faltas, negligências, todo tipo de omissão. Tudo isto bem dentro da visão de Elisabeth Leseur: “ Uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”! * Professor no Seminário de Mariana - MG
A MENSAGEM DE JOÃO BATISTA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na trajetória até o Presépio atualíssimos o testemunho e a mensagem do Precursor (Lc 3,10-18). Cumpre ressaltar, em primeiro lugar, que foi no deserto que Ele ouviu, meditou e viveu a Palavra de Deus para, em seguida, doutrinar as multidões. Estas que lhe faziam a clássica pergunta sempre dirigida a todos os grandes Mestres: “Que havemos de fazer?” Profeta e arauto de Deus, antes de tudo e sobretudo, ele chama à conversão e a produzir os frutos que dela emanam. É a fundamental atitude para se chegar até o Redentor, cujo nascimento os cristãos vão comemorar. Este processo de convertimento só é possível para quem se destaca do bulício exterior e vai ao deserto interior de sua consciência para reavaliar o posicionamento perante o Ser Supremo. Lá no íntimo do coração a intimidade de Deus se torna interioridade humana. O desejo da autêntica felicidade na posse do Bem Absoluto borbulha e leva a uma revisão existencial. Esta conduz à purificação, ao combate a todos os vícios, robustecendo a vontade com a graça celestial. É a mente humana sintonizada com a mente divina, apartando toda artificialidade oferecida pelo mundo, laçando por terra os castelos das ilusões fatídicas. É o tempo da verdade sobre si mesmo e o Criador de tudo. Este apelo ao deserto é fundamental para se entender as diretrizes joaninas. A todos ele determina: “Se tendes duas túnicas, reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça a mesma coisa”. Trata-se do combate ao egoísmo e do conselho salutar da partilha fraterna. Alerta, outrossim, contra a corrupção, a extorsão, a violência, o falso testemunho, a ambição. Adite-se que no tempo de João Batista o povo estava na expectativa da chegada do Messias e se indagam se não seria ele o enviado do Pai. João refuta com vigor e humildade esta pretensão dos que o admiravam . Ele, num gesto de suma humildade, declara que não era digno de desatar as correias das sandálias do Cordeiro de Deus. Não ilude o povo e mostra que a missão messiânica seria de salvação, mas também de julgamento, recolhendo o Messias o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimando-a num fogo inextinguível. É preciso, de fato, ir até Jesus longe de toda embófia e na mais total sinceridade. Não bastam os aplausos festivos ao Menino Deus, mas é imprescindível a aceitação completa de sua Pessoa, que exige renúncia e fuga do mal moral. João Batista será fiel até o martírio, ofertando o dom de sua vida, ratificando o que pregava. Início de milênio, qual a atualidade de tudo que ele anunciou? É complicado para o homem contemporâneo viver a interioridade que se contempla no Batista. O barulho de uma sociedade de consumo arrasta o ser pensante para fora de si mesmo. É necessário, porém, parar e se interrogar sobre o magno sentido da Encarnação do Verbo de Deus. Deu-se uma maravilhosa katábasis, o Infinito desceu até o finito, o Necessário ao contingente e agora o homem pode, numa sublime anábasis, ascender até o Todo-Poderoso. João Batista vem lembrar que todos os seres racionais são vocacionados, chamados por Deus para uma ventura sem fim, obtida pela salvação daquele que se imolaria por toda a humanidade. Grande esperança, terrível responsabilidade, pois tudo dependerá da correspondência a tamanho benefício, ocasionado por um amor eterno. As dádivas de Deus são resultado de uma misericórdia sem limites, mas supõem o viver segundo a justiça, praticando os Mandamentos, roteiros da autêntica beatitude. Como João Batista devemos ser epígonos de Jesus, seguindo-O e O levando aos outros, pois todo batizado deve ser um denodado apóstolo, proclamando, por toda parte, a Boa Nova. Esta representa a instauração da concórdia, dado que tal foi o augúrio dos anjos: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por Ele amados”!. * Professor no Seminário de Mariana - Mg

PLANEJAR AS VEREDAS DO SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cada mistério da fé que se celebra através da Liturgia é uma renovação das graças específicas do evento comemorado. Não se trata de uma mera lembrança de fatos longínquos, ecos de epifanias divinas, mas, sim, de manifestações celestiais que possuem um valor atual, vivo, eterno. É algo presente, fecundo e operante. Cada recordação de Cristo é como uma expansão de sua virtude, como uma realização da graça que mereceu para todos durante sua vida mortal. Trata-se de uma nova visita do Redentor que se faz contemporâneo das gerações cristãs. Eis por que é sempre necessário acolher a diretriz de João Batista: “Preparai os caminhos do Senhor” (Lc 3,4). Isto significa que cada batizado deve dar um balanço na sua existência cristã para aquilatar até onde tem cooperado com o Projeto de Deus no contexto histórico de hoje e no lugar no qual a Providência o colocou. Verificar se em seu derredor está havendo uma revolução das mentalidades, dos procedimentos na vivência total do Evangelho que precisa impregnar a própria vida e a daqueles que, direta ou indiretamente, necessitam ser atingidos pela ação do Apóstolo de Jesus. O Natal não pode ser uma festa folclórica ou uma ida sentimental à gruta de Belém. Para o cristianismo a História não é circular, mas linear numa marcha para cima e para a frente. O passado deve ser um elã para o futuro, dado que a Encarnação e o Nascimento do Verbo de Deus são um ponto de partida de redenção universal, não um ponto de chegada. É por isto que, ano após ano, o roteiro traçado pelo Precursor possui sempre uma nova mensagem, dado que se trata do povo de Deus em marcha para o reencontro com o Salvador no fim dos tempos, oferecendo seu Natal a cada ano novas perspectivas para que o Seu reino esteja entre os homens. É preciso então encher os vales das injustiças humanas, aterrando-os com as obras de misericórdia, indo de encontro dos marginalizados. Isto supõe ainda derrubar as colinas da prepotência dos poderosos que fazem do povo massa de manobra. Deste modo, as tortuosas relações humanas se endireitarão, uma vez que há os lutadores corajosos contra a falsidade, os quais desejam e trabalham pelo império da Verdade. A bondade, o amor farão então maravilhosas as rotas terrenas, oferecendo a todos condições para a marcha triunfal até o regresso de Jesus. Cumpre, portanto, deixar o Espírito Santo agir para que a benevolência triunfe sobre a ira e o egoísmo. Na medida em que todos se deixam penetrar pelo júbilo do nascimento do Messias. Então no lugar dos amargos desencantamentos humanos, das desilusões terrenas, do cinismo, dos temores reinarão a imperturbabilidade, a tranqüilidade, a sinceridade e a paz interior. Este é o tempo em que o Espírito de Deus torna cada um mais paciente e tolerante apesar da turbulência ocasionada pelos telefones celulares, pela internet, pelos programas televisivos, pelos jornais eletrônicos ou escritos, que embora, por vezes úteis, impedem a viagem lá dentro do coração e o auto-domínio. Esta é a hora em que a graça divina quer apartar toda agressividade e apagar a rudeza nas relações mútuas. O convite de João Batista conduz à superação do pragmatismo, do desejo de prazeres imediatos que enodam a alma. É mister que cada um reavalie suas potencialidades, fugindo deste mal crônico atual que é a baixa estima. Quem acertou as veredas do Senhor verá então as reais necessidades alheias, as quais poderão ser atendidas não obstante as limitações dos recursos pessoais. Então o batizado procurará simplificar a sua existência, fazendo-se mais humilde e modesto e, até, em benefício da própria saúde chegar ao Presépio no peso ideal, orientado por um bom Nutricionista, longe da escravidão dos falsos deleites oferecidos pela sociedade de consumo que afasta do alimento e da bebida naturais muito mais deliciosas e saudáveis. A ceia de Natal, será deste modo, marcada pelo bom senso e longe das iguarias que matam o corpo e o espírito. É que, preparar os caminhos de Jesus, é mostrar e viver os valores do Reino que Ele veio instaurar entre os homens. Aí, sim,os votos natalinos serão uma realidade, fazendo melhor o mundo dos homens que Cristo veio redimir. * Professor no Seminário de Mariana – MG

Reflexões para o fim do ano

REPARAR AS FALTAS DO ANO QUE FINDA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
10 Há um episódio na Bíblia sumamente ilustrativo sobre a importância do justo, que é catalizador da misericórdia divina. Relata a Escritura que, quando Deus anunciou a Abraão a destruição de Sodoma este argumentou dizendo a Javé que não convinha punir os bons juntamente com os maus. O Onipotente, generosamente, afirmou a Abraão: “Se eu achar no meio da cidade de Sodoma cinqüenta justos, perdoarei por amor deles a cidade”(Gên 18, 26.) Temeroso o Patriarca, respeitosamente, foi perguntando a Deus que aconteceria se houvesse apenas quarenta e cinco, e depois foi abaixando este número, passando para quarenta, trinta, vinte pessoas dignas, que habitassem a cidade. Deus foi, pacientemente, respondendo a Abraão, afirmando que, em atenção a eles, seria preservada a urbe pecadora. Finalmente o Patriarca levantou a derradeira questão assim registrada no Gênesis: “Eu te conjuro Senhor, continuou Abraão, não te enfades, se eu te falar ainda uma vez: Que será se lá forem achados dez justos? E disse Deus: “Não destruirei por amor dos dez”. Diz o Livro Santo que Deus em seguida se retirou. Não havia nem uma dezena de indivíduos sensatos que pudessem contrabalançar as desordens daquela cidade, que foi inteiramente destruída. Cristãos que reparam junto do Coração de Jesus as prevaricações humanas são pára-raios desta terra. Esta necessita de quem reze, se sacrifique e se espiritualize, irradiando o bem na sociedade e dando à justiça divina ocasião para agir benevolamente. Somos todos responsáveis. A pergunta de Deus a Caim continua ressoando nas quebradas da História: “Onde está o teu irmão Abel”? (Gên 4, 9).O Coração de Jesus não quer necessariamente nada de extraordinário. Deseja, isto sim, a aplicação amorosa dos naturais sofrimentos do peregrinar terrestre nestas intenções propiciatórias. Valor imenso possuem os trabalhos cotidianos realizados então com maior eficiência para cooperar com o Redentor. Esta doação é de sumo agrado de Cristo. Torna-se a reparação um estado de espírito que envolve o mundo numa aura sobrenatural. Então, quando alguém contempla os erros, ao invés de lamentar a escuridão reinante, ou recriminar a ignávia covarde dos que cedem ao pecado, acende a lâmpada de uma propiciação beatificante e inicia o processo de conversão do próximo, por ele oferecendo sacrifícios e preces. É preciso rezar pelos que não oram, reparar pelos que afrontam a Deus. Assim se expressou o papa Pio XI após referir-se aos males morais da humanidade: “Quantos, acesos em amor a Jesus padecente, aplicarem o ânimo a estas considerações, não poderão deixar de ressarcir com maior empenho a honra de Cristo, expiar as culpas próprias e alheias e procurar a eterna salvação das almas”. O mundo estará salvo, enquanto houver quem compreenda e pratique tal ensinamento. No término de mais um ano, nada melhor do que atos de reparação por todos os crimes cometidos mundo todo neste ano. Barbaridades das guerras, dos assassinatos horrípilos, dos assaltos, abortos, enfim, tudo que significou o desprezo do Decálogo numa afronta acintosa ao Ser Supremo. Solicitação de perdão também pelas próprias faltas, negligências, todo tipo de omissão. Tudo isto bem dentro da visão de Elisabeth Leseur: “ Uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”! * Professor no Seminário de Mariana - MG
A MENSAGEM DE JOÃO BATISTA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na trajetória até o Presépio atualíssimos o testemunho e a mensagem do Precursor (Lc 3,10-18). Cumpre ressaltar, em primeiro lugar, que foi no deserto que Ele ouviu, meditou e viveu a Palavra de Deus para, em seguida, doutrinar as multidões. Estas que lhe faziam a clássica pergunta sempre dirigida a todos os grandes Mestres: “Que havemos de fazer?” Profeta e arauto de Deus, antes de tudo e sobretudo, ele chama à conversão e a produzir os frutos que dela emanam. É a fundamental atitude para se chegar até o Redentor, cujo nascimento os cristãos vão comemorar. Este processo de convertimento só é possível para quem se destaca do bulício exterior e vai ao deserto interior de sua consciência para reavaliar o posicionamento perante o Ser Supremo. Lá no íntimo do coração a intimidade de Deus se torna interioridade humana. O desejo da autêntica felicidade na posse do Bem Absoluto borbulha e leva a uma revisão existencial. Esta conduz à purificação, ao combate a todos os vícios, robustecendo a vontade com a graça celestial. É a mente humana sintonizada com a mente divina, apartando toda artificialidade oferecida pelo mundo, laçando por terra os castelos das ilusões fatídicas. É o tempo da verdade sobre si mesmo e o Criador de tudo. Este apelo ao deserto é fundamental para se entender as diretrizes joaninas. A todos ele determina: “Se tendes duas túnicas, reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça a mesma coisa”. Trata-se do combate ao egoísmo e do conselho salutar da partilha fraterna. Alerta, outrossim, contra a corrupção, a extorsão, a violência, o falso testemunho, a ambição. Adite-se que no tempo de João Batista o povo estava na expectativa da chegada do Messias e se indagam se não seria ele o enviado do Pai. João refuta com vigor e humildade esta pretensão dos que o admiravam . Ele, num gesto de suma humildade, declara que não era digno de desatar as correias das sandálias do Cordeiro de Deus. Não ilude o povo e mostra que a missão messiânica seria de salvação, mas também de julgamento, recolhendo o Messias o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimando-a num fogo inextinguível. É preciso, de fato, ir até Jesus longe de toda embófia e na mais total sinceridade. Não bastam os aplausos festivos ao Menino Deus, mas é imprescindível a aceitação completa de sua Pessoa, que exige renúncia e fuga do mal moral. João Batista será fiel até o martírio, ofertando o dom de sua vida, ratificando o que pregava. Início de milênio, qual a atualidade de tudo que ele anunciou? É complicado para o homem contemporâneo viver a interioridade que se contempla no Batista. O barulho de uma sociedade de consumo arrasta o ser pensante para fora de si mesmo. É necessário, porém, parar e se interrogar sobre o magno sentido da Encarnação do Verbo de Deus. Deu-se uma maravilhosa katábasis, o Infinito desceu até o finito, o Necessário ao contingente e agora o homem pode, numa sublime anábasis, ascender até o Todo-Poderoso. João Batista vem lembrar que todos os seres racionais são vocacionados, chamados por Deus para uma ventura sem fim, obtida pela salvação daquele que se imolaria por toda a humanidade. Grande esperança, terrível responsabilidade, pois tudo dependerá da correspondência a tamanho benefício, ocasionado por um amor eterno. As dádivas de Deus são resultado de uma misericórdia sem limites, mas supõem o viver segundo a justiça, praticando os Mandamentos, roteiros da autêntica beatitude. Como João Batista devemos ser epígonos de Jesus, seguindo-O e O levando aos outros, pois todo batizado deve ser um denodado apóstolo, proclamando, por toda parte, a Boa Nova. Esta representa a instauração da concórdia, dado que tal foi o augúrio dos anjos: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por Ele amados”!. * Professor no Seminário de Mariana - Mg

PLANEJAR AS VEREDAS DO SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cada mistério da fé que se celebra através da Liturgia é uma renovação das graças específicas do evento comemorado. Não se trata de uma mera lembrança de fatos longínquos, ecos de epifanias divinas, mas, sim, de manifestações celestiais que possuem um valor atual, vivo, eterno. É algo presente, fecundo e operante. Cada recordação de Cristo é como uma expansão de sua virtude, como uma realização da graça que mereceu para todos durante sua vida mortal. Trata-se de uma nova visita do Redentor que se faz contemporâneo das gerações cristãs. Eis por que é sempre necessário acolher a diretriz de João Batista: “Preparai os caminhos do Senhor” (Lc 3,4). Isto significa que cada batizado deve dar um balanço na sua existência cristã para aquilatar até onde tem cooperado com o Projeto de Deus no contexto histórico de hoje e no lugar no qual a Providência o colocou. Verificar se em seu derredor está havendo uma revolução das mentalidades, dos procedimentos na vivência total do Evangelho que precisa impregnar a própria vida e a daqueles que, direta ou indiretamente, necessitam ser atingidos pela ação do Apóstolo de Jesus. O Natal não pode ser uma festa folclórica ou uma ida sentimental à gruta de Belém. Para o cristianismo a História não é circular, mas linear numa marcha para cima e para a frente. O passado deve ser um elã para o futuro, dado que a Encarnação e o Nascimento do Verbo de Deus são um ponto de partida de redenção universal, não um ponto de chegada. É por isto que, ano após ano, o roteiro traçado pelo Precursor possui sempre uma nova mensagem, dado que se trata do povo de Deus em marcha para o reencontro com o Salvador no fim dos tempos, oferecendo seu Natal a cada ano novas perspectivas para que o Seu reino esteja entre os homens. É preciso então encher os vales das injustiças humanas, aterrando-os com as obras de misericórdia, indo de encontro dos marginalizados. Isto supõe ainda derrubar as colinas da prepotência dos poderosos que fazem do povo massa de manobra. Deste modo, as tortuosas relações humanas se endireitarão, uma vez que há os lutadores corajosos contra a falsidade, os quais desejam e trabalham pelo império da Verdade. A bondade, o amor farão então maravilhosas as rotas terrenas, oferecendo a todos condições para a marcha triunfal até o regresso de Jesus. Cumpre, portanto, deixar o Espírito Santo agir para que a benevolência triunfe sobre a ira e o egoísmo. Na medida em que todos se deixam penetrar pelo júbilo do nascimento do Messias. Então no lugar dos amargos desencantamentos humanos, das desilusões terrenas, do cinismo, dos temores reinarão a imperturbabilidade, a tranqüilidade, a sinceridade e a paz interior. Este é o tempo em que o Espírito de Deus torna cada um mais paciente e tolerante apesar da turbulência ocasionada pelos telefones celulares, pela internet, pelos programas televisivos, pelos jornais eletrônicos ou escritos, que embora, por vezes úteis, impedem a viagem lá dentro do coração e o auto-domínio. Esta é a hora em que a graça divina quer apartar toda agressividade e apagar a rudeza nas relações mútuas. O convite de João Batista conduz à superação do pragmatismo, do desejo de prazeres imediatos que enodam a alma. É mister que cada um reavalie suas potencialidades, fugindo deste mal crônico atual que é a baixa estima. Quem acertou as veredas do Senhor verá então as reais necessidades alheias, as quais poderão ser atendidas não obstante as limitações dos recursos pessoais. Então o batizado procurará simplificar a sua existência, fazendo-se mais humilde e modesto e, até, em benefício da própria saúde chegar ao Presépio no peso ideal, orientado por um bom Nutricionista, longe da escravidão dos falsos deleites oferecidos pela sociedade de consumo que afasta do alimento e da bebida naturais muito mais deliciosas e saudáveis. A ceia de Natal, será deste modo, marcada pelo bom senso e longe das iguarias que matam o corpo e o espírito. É que, preparar os caminhos de Jesus, é mostrar e viver os valores do Reino que Ele veio instaurar entre os homens. Aí, sim,os votos natalinos serão uma realidade, fazendo melhor o mundo dos homens que Cristo veio redimir. * Professor no Seminário de Mariana – MG