REPARAR AS FALTAS DO ANO QUE FINDA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
10 Há um episódio na Bíblia sumamente ilustrativo sobre a importância do justo, que é catalizador da misericórdia divina. Relata a Escritura que, quando Deus anunciou a Abraão a destruição de Sodoma este argumentou dizendo a Javé que não convinha punir os bons juntamente com os maus. O Onipotente, generosamente, afirmou a Abraão: “Se eu achar no meio da cidade de Sodoma cinqüenta justos, perdoarei por amor deles a cidade”(Gên 18, 26.) Temeroso o Patriarca, respeitosamente, foi perguntando a Deus que aconteceria se houvesse apenas quarenta e cinco, e depois foi abaixando este número, passando para quarenta, trinta, vinte pessoas dignas, que habitassem a cidade. Deus foi, pacientemente, respondendo a Abraão, afirmando que, em atenção a eles, seria preservada a urbe pecadora. Finalmente o Patriarca levantou a derradeira questão assim registrada no Gênesis: “Eu te conjuro Senhor, continuou Abraão, não te enfades, se eu te falar ainda uma vez: Que será se lá forem achados dez justos? E disse Deus: “Não destruirei por amor dos dez”. Diz o Livro Santo que Deus em seguida se retirou. Não havia nem uma dezena de indivíduos sensatos que pudessem contrabalançar as desordens daquela cidade, que foi inteiramente destruída. Cristãos que reparam junto do Coração de Jesus as prevaricações humanas são pára-raios desta terra. Esta necessita de quem reze, se sacrifique e se espiritualize, irradiando o bem na sociedade e dando à justiça divina ocasião para agir benevolamente. Somos todos responsáveis. A pergunta de Deus a Caim continua ressoando nas quebradas da História: “Onde está o teu irmão Abel”? (Gên 4, 9).O Coração de Jesus não quer necessariamente nada de extraordinário. Deseja, isto sim, a aplicação amorosa dos naturais sofrimentos do peregrinar terrestre nestas intenções propiciatórias. Valor imenso possuem os trabalhos cotidianos realizados então com maior eficiência para cooperar com o Redentor. Esta doação é de sumo agrado de Cristo. Torna-se a reparação um estado de espírito que envolve o mundo numa aura sobrenatural. Então, quando alguém contempla os erros, ao invés de lamentar a escuridão reinante, ou recriminar a ignávia covarde dos que cedem ao pecado, acende a lâmpada de uma propiciação beatificante e inicia o processo de conversão do próximo, por ele oferecendo sacrifícios e preces. É preciso rezar pelos que não oram, reparar pelos que afrontam a Deus. Assim se expressou o papa Pio XI após referir-se aos males morais da humanidade: “Quantos, acesos em amor a Jesus padecente, aplicarem o ânimo a estas considerações, não poderão deixar de ressarcir com maior empenho a honra de Cristo, expiar as culpas próprias e alheias e procurar a eterna salvação das almas”. O mundo estará salvo, enquanto houver quem compreenda e pratique tal ensinamento. No término de mais um ano, nada melhor do que atos de reparação por todos os crimes cometidos mundo todo neste ano. Barbaridades das guerras, dos assassinatos horrípilos, dos assaltos, abortos, enfim, tudo que significou o desprezo do Decálogo numa afronta acintosa ao Ser Supremo. Solicitação de perdão também pelas próprias faltas, negligências, todo tipo de omissão. Tudo isto bem dentro da visão de Elisabeth Leseur: “ Uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”! * Professor no Seminário de Mariana - MG
A MENSAGEM DE JOÃO BATISTA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Na trajetória até o Presépio atualíssimos o testemunho e a mensagem do Precursor (Lc 3,10-18). Cumpre ressaltar, em primeiro lugar, que foi no deserto que Ele ouviu, meditou e viveu a Palavra de Deus para, em seguida, doutrinar as multidões. Estas que lhe faziam a clássica pergunta sempre dirigida a todos os grandes Mestres: “Que havemos de fazer?” Profeta e arauto de Deus, antes de tudo e sobretudo, ele chama à conversão e a produzir os frutos que dela emanam. É a fundamental atitude para se chegar até o Redentor, cujo nascimento os cristãos vão comemorar. Este processo de convertimento só é possível para quem se destaca do bulício exterior e vai ao deserto interior de sua consciência para reavaliar o posicionamento perante o Ser Supremo. Lá no íntimo do coração a intimidade de Deus se torna interioridade humana. O desejo da autêntica felicidade na posse do Bem Absoluto borbulha e leva a uma revisão existencial. Esta conduz à purificação, ao combate a todos os vícios, robustecendo a vontade com a graça celestial. É a mente humana sintonizada com a mente divina, apartando toda artificialidade oferecida pelo mundo, laçando por terra os castelos das ilusões fatídicas. É o tempo da verdade sobre si mesmo e o Criador de tudo. Este apelo ao deserto é fundamental para se entender as diretrizes joaninas. A todos ele determina: “Se tendes duas túnicas, reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça a mesma coisa”. Trata-se do combate ao egoísmo e do conselho salutar da partilha fraterna. Alerta, outrossim, contra a corrupção, a extorsão, a violência, o falso testemunho, a ambição. Adite-se que no tempo de João Batista o povo estava na expectativa da chegada do Messias e se indagam se não seria ele o enviado do Pai. João refuta com vigor e humildade esta pretensão dos que o admiravam . Ele, num gesto de suma humildade, declara que não era digno de desatar as correias das sandálias do Cordeiro de Deus. Não ilude o povo e mostra que a missão messiânica seria de salvação, mas também de julgamento, recolhendo o Messias o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimando-a num fogo inextinguível. É preciso, de fato, ir até Jesus longe de toda embófia e na mais total sinceridade. Não bastam os aplausos festivos ao Menino Deus, mas é imprescindível a aceitação completa de sua Pessoa, que exige renúncia e fuga do mal moral. João Batista será fiel até o martírio, ofertando o dom de sua vida, ratificando o que pregava. Início de milênio, qual a atualidade de tudo que ele anunciou? É complicado para o homem contemporâneo viver a interioridade que se contempla no Batista. O barulho de uma sociedade de consumo arrasta o ser pensante para fora de si mesmo. É necessário, porém, parar e se interrogar sobre o magno sentido da Encarnação do Verbo de Deus. Deu-se uma maravilhosa katábasis, o Infinito desceu até o finito, o Necessário ao contingente e agora o homem pode, numa sublime anábasis, ascender até o Todo-Poderoso. João Batista vem lembrar que todos os seres racionais são vocacionados, chamados por Deus para uma ventura sem fim, obtida pela salvação daquele que se imolaria por toda a humanidade. Grande esperança, terrível responsabilidade, pois tudo dependerá da correspondência a tamanho benefício, ocasionado por um amor eterno. As dádivas de Deus são resultado de uma misericórdia sem limites, mas supõem o viver segundo a justiça, praticando os Mandamentos, roteiros da autêntica beatitude. Como João Batista devemos ser epígonos de Jesus, seguindo-O e O levando aos outros, pois todo batizado deve ser um denodado apóstolo, proclamando, por toda parte, a Boa Nova. Esta representa a instauração da concórdia, dado que tal foi o augúrio dos anjos: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por Ele amados”!. * Professor no Seminário de Mariana - Mg
PLANEJAR AS VEREDAS DO SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cada mistério da fé que se celebra através da Liturgia é uma renovação das graças específicas do evento comemorado. Não se trata de uma mera lembrança de fatos longínquos, ecos de epifanias divinas, mas, sim, de manifestações celestiais que possuem um valor atual, vivo, eterno. É algo presente, fecundo e operante. Cada recordação de Cristo é como uma expansão de sua virtude, como uma realização da graça que mereceu para todos durante sua vida mortal. Trata-se de uma nova visita do Redentor que se faz contemporâneo das gerações cristãs. Eis por que é sempre necessário acolher a diretriz de João Batista: “Preparai os caminhos do Senhor” (Lc 3,4). Isto significa que cada batizado deve dar um balanço na sua existência cristã para aquilatar até onde tem cooperado com o Projeto de Deus no contexto histórico de hoje e no lugar no qual a Providência o colocou. Verificar se em seu derredor está havendo uma revolução das mentalidades, dos procedimentos na vivência total do Evangelho que precisa impregnar a própria vida e a daqueles que, direta ou indiretamente, necessitam ser atingidos pela ação do Apóstolo de Jesus. O Natal não pode ser uma festa folclórica ou uma ida sentimental à gruta de Belém. Para o cristianismo a História não é circular, mas linear numa marcha para cima e para a frente. O passado deve ser um elã para o futuro, dado que a Encarnação e o Nascimento do Verbo de Deus são um ponto de partida de redenção universal, não um ponto de chegada. É por isto que, ano após ano, o roteiro traçado pelo Precursor possui sempre uma nova mensagem, dado que se trata do povo de Deus em marcha para o reencontro com o Salvador no fim dos tempos, oferecendo seu Natal a cada ano novas perspectivas para que o Seu reino esteja entre os homens. É preciso então encher os vales das injustiças humanas, aterrando-os com as obras de misericórdia, indo de encontro dos marginalizados. Isto supõe ainda derrubar as colinas da prepotência dos poderosos que fazem do povo massa de manobra. Deste modo, as tortuosas relações humanas se endireitarão, uma vez que há os lutadores corajosos contra a falsidade, os quais desejam e trabalham pelo império da Verdade. A bondade, o amor farão então maravilhosas as rotas terrenas, oferecendo a todos condições para a marcha triunfal até o regresso de Jesus. Cumpre, portanto, deixar o Espírito Santo agir para que a benevolência triunfe sobre a ira e o egoísmo. Na medida em que todos se deixam penetrar pelo júbilo do nascimento do Messias. Então no lugar dos amargos desencantamentos humanos, das desilusões terrenas, do cinismo, dos temores reinarão a imperturbabilidade, a tranqüilidade, a sinceridade e a paz interior. Este é o tempo em que o Espírito de Deus torna cada um mais paciente e tolerante apesar da turbulência ocasionada pelos telefones celulares, pela internet, pelos programas televisivos, pelos jornais eletrônicos ou escritos, que embora, por vezes úteis, impedem a viagem lá dentro do coração e o auto-domínio. Esta é a hora em que a graça divina quer apartar toda agressividade e apagar a rudeza nas relações mútuas. O convite de João Batista conduz à superação do pragmatismo, do desejo de prazeres imediatos que enodam a alma. É mister que cada um reavalie suas potencialidades, fugindo deste mal crônico atual que é a baixa estima. Quem acertou as veredas do Senhor verá então as reais necessidades alheias, as quais poderão ser atendidas não obstante as limitações dos recursos pessoais. Então o batizado procurará simplificar a sua existência, fazendo-se mais humilde e modesto e, até, em benefício da própria saúde chegar ao Presépio no peso ideal, orientado por um bom Nutricionista, longe da escravidão dos falsos deleites oferecidos pela sociedade de consumo que afasta do alimento e da bebida naturais muito mais deliciosas e saudáveis. A ceia de Natal, será deste modo, marcada pelo bom senso e longe das iguarias que matam o corpo e o espírito. É que, preparar os caminhos de Jesus, é mostrar e viver os valores do Reino que Ele veio instaurar entre os homens. Aí, sim,os votos natalinos serão uma realidade, fazendo melhor o mundo dos homens que Cristo veio redimir. * Professor no Seminário de Mariana – MG